"Em que mundo um homem tem o direito de destruir uma mulher, pelo simples prazer de ser engraçado? Em que ponto cego fixamos nossa humanidade?"


“No dia da mulher, um machista me chamou em um aplicativo, marcou um encontro em uma cafeteria e me deixou lá plantada. Depois eu descobri que foi uma aposta feita com os amigos. A aposta era como deixar uma mulher feia triste no dia da mulher. Foi a pior sensação do mundo, chorei muito. Estou acima do peso, não tenho mais saído de casa e não quero mais me relacionar com ninguém”. 

Recebi essa mensagem no direct do Ser Mulher no Brasil. E hoje, cinco meses depois, decidi escrever sobre isso. Demorei? Pode ser, é que, cá entre nós, as vezes escrever exige anular a ira e manter algum resquício de lucidez diante de requintes de crueldade elevada a diversão. Quando eu li esse relato, me veio um misto de sensações, das mais medonhas e primitivas, há tempos prometi não manter no meu peito sentimentos tão desalmados, mas até os corações mais treinados, em certas horas abraça a fúria. Em que mundo implacável vivemos? Em que mundo um homem tem o direito de destruir uma mulher, pelo simples prazer de ser engraçado? Em que ponto cego fixamos nossa humanidade?

Não é novidade para ninguém que vivemos em um País extremamente hostil e violento com as mulheres, que exalta machos e silencia fêmeas. Um lugar ideal onde o masculino é vital e o feminino é figurativo. Homens “amam” mulheres quando são suas mães, irmãs, filhas, amigas, esposas (e olhe lá, isso tem até prazo de validade), mas são incapazes de estender esse sentimento as outras mulheres que compõe o mundo. Um tanto de outras filhas, mães, irmãs, amigas e esposas de outros homens. É sempre importante lembrar, mesmo morta, ainda podemos respirar.

Eu me pergunto muitas vezes se existirá um dia, assim, como num passe de mágica, um mundo gentil para nós. Não me refiro nem a justiça porque aí precisaríamos de outras tantas vidas mas pelo menos gentileza, empatia e com um pouco de sorte respeito. É pedir muito? 

“ Moça, está acima do peso não te diminui em nada como mulher, exalte a sua existência, quantas batalhas você precisou viver pra chegar até aqui? Você respira. Pare na frente do espelho e repita todos os dias: eu sou uma mulher foda! Eu sei que parece tolo, mas escuta, eu já fiz isso. E foi bom. Por fim, volte a se relacionar, a gente é sempre o tipo perfeito de alguém. Não se esconda. Não se intimide. Vá pra vida. E faça um favor pra mim, vá se apaixonar, mas dessa vez por você e renove essa paixão todos os dias da sua vida. Com afeto, Alana". 

 Alana Lial (@alanalial) – (@sermulhernobrasil)

 

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